Falar do pecado em si mesmo, falar dele a parte das realidades da criação e da graça, é esquecer a solução de Deus. Deus quer o shalom, e paga qualquer coisa para tê-lo de volta. O pecado humano é teimoso, mas não teimoso como a graça de Deus e nem tem a metade da sua persistência, nem a metade da sua disposição para sofrer pela vitória. Sobretudo, falar de pecado em si mesmo é não entender a sua natureza: o pecado é só um parasita, um vândalo, um despojado.
Vida pecaminosa é parcialmente deprimente, parcialmente fúnebre caricatura da autêntica vida humana. Concentrar-nos em nossa rebelião, deserção e estultícia – dizer ao mundo “Tenho más e más notícias” – é esquecer que o centro da religião cristã não é nosso pecado, mas nosso Salvador. Falar de pecado sem falar de graça é minimizar a ressurreição de Jesus Cristo, o fruto do Espírito e a esperança do shalom.
Falar de graça, porém, sem falar de pecado, certamente não é melhor. Fazer isso é trivializar a cruz de Jesus Cristo, é deslizar sobre todas as lutas de boas pessoas através das eras para perdoar, aceitar e reabilitar pecadores, incluindo nós mesmos e, portanto, baratear a graça de Deus que vem a nós manchada de sangue. O que pensamos que significaram as dilacerações e a agonia do Gólgota? Falar de graça sem considerar acuradamente essas realidades, sem reconhecimento dolorosamente honesto dos nossos pecados e seus efeitos, é reduzi-la a um mero adorno da música da criação, é reduzi-la a uma mera nota graciosa.
Em suma, para a igreja cristã (mesmo nos seus recentes cultos dirigidos para atrair os não ligados à igreja), ignorar, suavizar ou calar a realidade letal do pecado é cortar o nervo do evangelho. A verdade é que sem plena exposição do pecado, o evangelho da graça se torna impertinente, desnecessário e, finalmente, nada interessante.