Já consideramos três dos cinco pontos do calvinismo sugeridos no acróstico TULIP. Examinamos a doutrina da depravação total, o ensino calvinista de que o homem caído não possui capacidade de salvar a si mesmo, nem de crer no Evangelho oferecido livremente. Depois, consideramos a eleição incondicional, o ensino de que pessoa são salvas devido ao fato de que Deus escolhe espontânea, soberana e incondicionalmente pecadores para serem redimidos por Cristo, trazidos à fé e, por fim, à glória. Também estudamos a expiação limitada, a doutrina de que a obra redentora de Cristo visa à salvação dos eleitos – em outras palavras, Cristo salva realmente aqueles pelos quais Ele morreu.
O quarto ponto da soteriologia calvinista é a doutrina da graça irresistível. Afirma que o Espírito Santo nunca falha em Seu objetivo de trazer à fé aqueles que são de Cristo. Esse ponto é resultado inevitável dos três primeiros. Nossa depravação total necessita da graça irresistível. A eleição incondicional é o seu ancoradouro. E a expiação limitada é a sua verdade correspondente, pois, se a graça salvadora fosse resistível, Cristo teria morrido em vão por muitos.
Uma compreensão nítida da doutrina da graça irresistível é tremendamente necessária em nossos dias. A igreja contemporânea está em meio a uma crise de confiança no que diz respeito à pregação bíblica e ao uso diligente dos meios de graça pelos quais o Espírito Santo age irresistivelmente na vida de pecadores. A igreja precisa reafirmar a sua fé no poder invencível da Palavra da verdade aplicada pelo Espírito.
Ao definir a graça irresistível, vejamos primeiramente o vocábulo graça, depois focalizaremos o adjetivo. O termo hebraico do Antigo Testamento que expressa a ideia de graça e os seus derivados sugerem os conceitos de bondade, favor e graciosidade. E o termo grego do Novo Testamento sugere a idéia de benevolência, amabilidade e favor. Quando aplicada a homens pecaminosos, no contexto de redenção,  graça significa favor imerecido em lugar da ira merecida. Frequentemente, a graça é definida somente como o favor imerecido de Deus outorgado a pecadores. No entanto, a palavra imerecido é muito fraca. Como pecadores, somos indignos do favor de Deus. Não somente não merecemos a graça, mas também merecemos o inferno.
A graça é a bênção de Deus outorgada espontaneamente a pecadores que merecem o mal. É uma bênção dada ao custo dos sofrimentos da morte de Cristo. A graça é o amor de Deus em Cristo colocado em ação. A graça é maior do que os nossos pecados, nossas circunstâncias adversas ou nossas impossibilidades humanas. A graça é o âmago da Bíblia e de nossa salvação.
A graça nos ensina que a salvação de pecadores indignos, merecedores do inferno (depravação total) é uma obra realizada apenas pelo Deus trino. Cada uma das pessoas da Trindade participa e contribui nessa obra. Antes da fundação do mundo, o Pai separou aqueles que seriam salvos. Depois, Ele os deu ao Filho para que fossem Seu povo (eleição incondicional). Na plenitude do tempo, o Filho veio  ao mundo e os redimiu com o Seu sangue (expiação limitada).
Contudo, os dois grandes atos de eleição e de redenção não completaram a obra de salvação. Incluída no plano de Deus quanto à salvação de pecadores, está a obra renovadora do Espírito Santo, pela qual a redenção é aplicada aos eleitos. Esse é o aspecto da salvação que pode ser chamado de irresistível ou eficaz. Quando calvinistas afirmam que a graça é irresistível, eles querem dizer que o Espírito Santo nunca falha em chamar, regenerar e salvar aqueles que o Pai escolheu e Cristo redimiu. A graça irresistível é absolutamente infalível; ela cumprirá seus intentos. Os objetos da graça salvadora serão infalivelmente salvos.
  • Quando Deus realiza seu beneplácito nos eleitos ou opera neles a verdadeira conversão, Ele não somente faz com que o evangelho lhes seja pregado e ilumina poderosamente a sua mente pelo Espírito Santo, para que entendam de modo correto e discirnam as coisas do Espírito de Deus; mas também, mediante a eficácia do mesmo Espírito, regenerador, Deus penetra os recessos mais íntimos do homem, abre o coração fechado e amolece o coração endurecido; circuncida aquilo que era incircunciso, infunde novas qualidades na vontade, que, antes morta, Ele vivifica. Ele torna boa, agradável e maleável a vontade que era má, desobediente e obstinada; atua nela e fortalece-a, para que, como uma árvore boa, porduza os frutos de boas ações.
Cânones de Dort, Capítulo III-IV, Artigo 11
  • Todos os que Deus predestinou para a vida, e somente esses, Ele se apraz em chamar eficazmente, no tempo devido e determinado, à vida por meio de Sua Palavra e de Seu Espírito, de um estado de morte e pecado, no qual eles estão por natureza, à graça e à salvação por Jesus Cristo; iluminando salvífica e espiritualmente o entendimento deles para compreenderem as coisas de Deus; removendo o coração de pedra e dando-lhes um coração de carne; renovando a vontade deles e, por meio do Seu poder todo-poderoso, determinando-os para o que é bom; atraindo-os eficazmente a Jesus Crsito, de modo que venham espontaneamente, e tornando-os dispostos por Sua graça.
Confissão de Fé de Westminster (10.1)
Essas confissões deixam claro que a graça de Deus é invencível; ela cumprirá o propósito de Deus (Ef 1.1). Os eleitos são passivos em sua chamada e regeneração internas; e pela obra irresistível do Espírito Santo, eles são tornados dispostos no dia do poder de Cristo (Sl 110.3). O resultado da chamada eficaz do Espírito Santo é que os eleitos “vêm espontaneamente, sendo tornados dispostos por Sua graça”.